Território

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Santo António foi a primeira freguesia suburbana do Funchal e aquela que mais se desenvolveu, atingindo rapidamente uma população superior às freguesias citadinas. E ainda hoje, é a mais populosa do arquipélago.

Se a sua evolução histórica é marcada pelas diferentes conjunturas socioeconómicas regionais, a organização do território é fortemente influenciada pelo relevo, que determina importantes variações climáticas e uma distribuição diferenciada da biodiversidade, da agricultura e até da distribuição da população.

 Santo António assumiu-se como uma das áreas residenciais mais importantes da cidade do Funchal. Todavia mantem na paisagem, no património e na memória coletiva do seu povo, as marcas da sua histórica ruralidade.

Geografia

Vista sobre a freguesia de Santo António

Com uma área de 22,17 km2 a freguesia de Santo António é parte integrante do município do Funchal, sendo limitada pelas freguesias de São Roque a Este, São Martinho a Sul, Câmara de Lobos a Sudoeste, Estreito de Câmara de Lobos a Oeste e Curral das Freiras a Noroeste.

A sua forma estreita e alongada, de sentido sul-norte, caracteriza-se por um relevo complexo, muito recortado e com grandes diferenças de altitude, expressas numa sucessão de vales encaixados, vertentes de declives acentuados e extensas cumieiras ou lombos que, desde os primórdios da colonização, constituiram locais preferenciais para a fixação humana.

A sua localização, na vertente meridional da ilha da Madeira, mais abrigada dos ventos predominantes de norte, confere-lhe um clima ameno durante todo o ano, especialmente nas áreas mais baixas da freguesia (abaixo dos 200 metros de altitude), que evidencia padrões de um clima mediterrâneo, marcado por uma estação estival bem definida, com uma temperatura média anual que varia entre os 15° e os 19°C.

Quando se sobe em altitude, as temperaturas são gradualmente mais baixas. No topo das vertentes e dos picos que limitam a freguesia a norte, já nas proximidades do Pico do Areeiro, os padrões climáticos são de clima de altitude. Não há meses secos na estação de Verão e a média de temperatura anual é inferior aos 10°C. 

Em termos pluviométricos, as áreas mais a norte da freguesia, registam valores mais elevados de precipitação, podendo atingir 2000 e 2800 mm/ano. A combinação dos fatores orografia, elevadas altitudes e predominância de ventos de Norte, dão origem a nevoeiros frequentes e a chuvas orográficas que se precipitam em abundancia nestas áreas. À medida que descemos a encosta, a precipitação anual é progressivamente inferior, atingindo valores na ordem dos 800 mm/ano, na parte sul da freguesia.

Em termos anuais, há uma forte variabilidade pluviométrica, com ocorrência de precipitações mais intensas no início da Primavera e no Outono, contrariamente aos meses de maio a setembro, onde a precipitação é escassa.

A rede hidrográfica é bastante jovem, caracterizada, em geral, por um regime não permanente, torrencial. A maior parte dos vales são profundamente encaixados, em forma de V, provocados por uma erosão vertical muito acentuada. 

O relevo montanhoso e as variações climáticas em altitude, determinam a existência de vários andares de vegetação (andares bioclimáticos) que se refletem na produção agrícola. Até aos 200 metros de altitude, predominam as culturas tropicais, sendo a bananeira a que prevalece, misturando-se com árvores de fruto tropicais, nomeadamente a anoneira, a papaieira, o abacateiro, o maracujazeiro ou o mangueiro.

A produção de frutos mediterrâneos poder ser encontrada até aos 600 metros, onde predominam  os produtos hortícolas e a vinha. Acima desta altitude, até cerca de 800 metros, em lugares mais frios e mais húmidos, são cultivadas algumas árvores características das regiões com clima temperado oceânico, nomeadamente o pereiro, a ameixieira, a macieira, a que se associam produtos hortícolas. Acima dos 800 metros a produção agrícola é quase nula. O espaço é ocupado por floresta exótica, que no passado, fornecia a lenha para consumo da população.

A partir dos 1600 metros de altitude, a vegetação é constituída fundamentalmente por plantas herbáceas e arbustivas reunidas em várias comunidades rupícolas e herbáceas, com várias espécies endémicas da ilha, das quais se destacam a Armeria maderensis, Anthyllis lemanniana, Deschampsia maderensis,Teucrium francoi, Echium candicans (massaroco), Erica maderensis (urze- rasteira),Orchis scopulorum (orquídea-da-rocha), Plantago malato-belizii, Viola paradoxa (violeta) entre outras.

A temperatura amena e a fraca pluviosidade são condições propícias ao aproveitamento das terras das áreas mais baixas para a agricultura. Todavia, a escassez de chuvas, nos meses de verão, teve de ser compensada por um complexo sistema de levadas, por onde corre a água que alimenta a irrigação das parcelas agrícolas e possibilita colheitas mais rentáveis. A construção de socalcos foi também fundamental para a estabilização dos solos, embora dificulte a mecanização, o que leva a que a produção seja maioritariamente manual e pouco rentável.  Em consequência, a atividade agrícola é, geralmente, um complemento à ocupação principal, destinando-se sobretudo ao autoconsumo.

As explorações são, por norma, muito pequenas e fragmentadas, em consequência de um longo processo de divisões e partilhas ao longo de gerações. Mas também, porque algumas das melhores áreas de cultivo foram, ao longo dos anos, anexadas pela expansão urbana, sobretudo nas áreas mais baixas da freguesia. 

Pelas razões apontadas, a organização do território é fortemente influenciada pelo relevo, que determina importantes variações climáticas e uma distribuição diferenciada da biodiversidade e da ocupação humana.

Nas áreas mais a Norte, onde se erguem os pontos mais elevados, o território é montanhoso e essencialmente constituído por espaços florestais de grande interesse natural e paisagístico, onde o visitante poderá apreciar paisagens de grande beleza natural e caminhar por levadas ou percursos pedestres.

Na área intermédia, a sucessão de lombos, separados por vales profundos que acompanham as ribeiras, servem de base a uma soberba paisagem humanizada de socalcos agrícolas e habitações que nascem nas faldas da serra e se densificam à medida que os terrenos se vão tornando menos acidentados.

A Sul, a orografia mais suave e a proximidade ao centro do Funchal, originaram uma edificação mais intensa e maior concentração de pessoas, serviços e património urbano.

População

Evolução da População Residente na Freguesia de Santo António (Fonte: INE)

Com uma população de 27 383 habitantes (2011), a freguesia de Santo António é a mais populosa do Arquipélago da Madeira e uma das que apresenta maior densidade populacional, na ordem dos 1 235,1 hab./km². A evolução do número de residentes tem sido tendencionalmente crescente, desde 1864, excetuando os anos de 1960, em que a freguesia perdeu 306 habitantes e, 1991, onde perdeu 282 habitantes.

Este crescimento quase contínuo dos efetivos populacionais é explicado principalmente pela atratividade desta freguesia, que desde longa data, acolhe pessoas de toda a ilha que procuram melhores condições de vida na capital do arquipélago. As situações ocasionais de perda de efetivos, devem-se sobretudo a fenómenos pontuais de emigração em massa e às expressivas quebras de natalidade que se verificaram a partir do último quartel do Séc. XX.

Na Freguesia de Santo António, como na generalidade da Região Autónoma da Madeira, até à década de 60, do século XX, a população era predominantemente jovem, com elevadas taxas de natalidade, que resultavam da predominância de uma economia agrícola, onde os filhos eram encarados como uma fonte de rendimento, pois desde muito cedo iam trabalhar para os campos. A este fenómeno associava-se ainda a inexistência de escolaridade obrigatória, que se refletia em elevadas taxas de analfabetismo, uma forte influência religiosa, fraca divulgação dos métodos contracetivos e uma escassa participação da mulher no mercado de trabalho. Por outro lado, as precárias condições de vida, a falta de cuidados de saúde e de assistência médica eram responsáveis por uma baixa esperança média de vida, que se refletia num reduzido número de idosos.

A partir de 1950, o êxodo rural em direção à cidade do Funchal começa a fazer-se sentir com intensidade, sendo particularmente expressivo nas décadas de sessenta e setenta. Bem como, um forte fluxo emigratório, que contribuiu para uma redução das taxas de natalidade, e consequentemente, para uma diminuição do número de jovens e de jovens-adultos, com o consequente envelhecimento da população.

Todavia, a posição geográfica da freguesia de Santo António, desde longa data, demonstrou uma enorme atratividade de migrantes internos, que escolhiam esta freguesia, entre outros aspetos, pelo preço do solo, pela proximidade ao mercado de trabalho funchalense e pela amenidade do clima. Em consequência, na segunda metade do século XX, dá-se uma dispersão de pequenas moradias, que começam por ser mais frequentes nas áreas mais baixas da freguesia e ao longo dos lombos, mas com o passar dos anos, se vão adensando e ocupando grande parte das encostas, até uma quota próxima dos 750 metros de altitude.

Por outro lado, a ocupação do centro da cidade por serviços especializados, centros de negócios, industrias e novas formas de comércio, que se acentuaram no início do Séc. XXI, levaram a que muitas famílias se deslocassem para a periferia, tornando esta freguesia numa área preferencialmente residencial. Entre 2001 e 2011, regista-se um crescimento populacional de 24,8%, que nas áreas mais baixas da freguesia, resultou na substituição de muitas moradias unifamiliares por prédios de habitação, que contribuíram para um aumento significativo da densidade populacional. A este fenómeno associou-se a proliferação do pequeno comércio e de serviços do sector terciário, que conferem o dinamismo socioeconómico que esta freguesia apresenta atualmente.

Festividades

Festa em honra a Santo António, © fotografia em aprendermadeira.net

Os típicos arraiais madeirenses, são festividades religiosas em honra do orago da paróquia local, compostas pela celebração da eucaristia e tradicionais procissões, nas quais vários homens transportam o andor pelas ruas. Na celebração do Santíssimo Sacramento, é preparado um tapete de flores naturais pelos paroquianos por onde passa a procissão, contecimento que se tornou um marco de identidade local.

Junto às igrejas, as ruas são decoradas com adornos tradicionais e colorida iluminação, não abdicando, dos grupos musicais e bandas filarmónicas, o fogo de artificio, a tradicional gastronomia e os vários pontos de venda de artesanato e artefactos característicos em festividades populares.

Na Freguesia de Santo António são tradicionais as seguintes festividades religiosas:

Paróquia de Santo António

A paróquia de Santo António, celebra a festa do padroeiro a 13 de junho, seguindo-se a festa do Senhor no terceiro Domingo de junho e, a celebração em honra de Nossa Senhora de Guadalupe no último domingo do mês de outubro.

Paróquia dos Álamos

Na paróquia dos Álamos as celebrações são em honra a São João Batista, datadas de 24 de junho caso coincida com domingo, caso contrário, realiza-se no domingo seguinte e a festa do Senhor no primeiro domingo de julho.

Paróquia de Santo Amaro

Esta paróquia honra o seu orago Santo Amaro, no domingo a seguir a 15 de janeiro, celebra a festa de Santo Antão no primeiro domingo após 17 de janeiro e a festa do Senhor no segundo domingo de agosto.

Paróquia de Nossa Senhora da Visitação

Na paróquia de Nossa Senhora da Visitação, as celebrações em honra a Nossa Senhora da Visitação realizam-se no último domingo de julho, a festa do Senhor no primeiro domingo de agosto e a festa do Senhor da Paciência no Mosteiro do Lombo dos Aguiares, no segundo domingo de setembro.

Paróquia de Nossa Senhora da Graça

A paróquia de Nossa Senhora da Graça, honra a padroeira de Nossa Senhora de Medianeira de Todas as Graças no primeiro domingo de junho e a festa do Senhor no segundo domingo de Julho.  

Curiosidades

© fotografia www.lowcost.com.pt

Sabe o que são os “descansos”? Chegaram a ser mais de 50 na freguesia de Santo António!

Os “descansos” são locais que serviam para descansar ou apoiar cargas e mercadorias que eram transportadas, às costas, em cestos de vime. Eram utilizados principalmente pelas pessoas que vinham das zonas altas da freguesia de Santo António e do Curral das Freiras, para comercializar produtos agrícolas.

Sabia que esta freguesia já teve uma equipa de futebol chamada Mataró FC?

O Mataró FC foi criado para jogadores não federados, que jogavam nos torneios organizados entre sítios, no Campo dos Eucaliptos. Este campo era assim designado, por existirem em campo algumas destas árvores.

Sabia que, na década de 30 do Sec. XX, existiu um cinema na freguesia?

Aquando da criação da Casa do Povo em 1937, criou-se um cinema num armazém de grandes dimensões com capacidade para centenas de pessoas e passavam-se filmes ao fim-de-semana. O cinema encerrou em 1970.

Sabe o que são os “magotes” de pessoas que todos os dias passavam magotes desciam as encostas de Santo António?

Eram os grupos de pessoas que, antes da existência de transportes públicos nas zonas altas da freguesia, todos os dias de manhã desciam dos vários lombos da freguesia, para trabalhar nas fazendas ou no comércio no centro do Funchal, voltando a subir à noite, para regressar às suas casas.

Sabia que o edifício da Casa do Povo de Santo António não é o originalmente criado?

A Casa do Povo original situava-se no Caminho da Ladeira, no sítio da Terra Chã. Foi criada em 1937, sendo posteriormente vendida ao empresário João Jardim por 240 contos. Com este dinheiro e com a ajuda dos populares, construiu-se a nova infraestrutura que perdura até aos nossos dias. Atualmente, os terrenos da antiga Casa do Povo são uma área habitacional.

Provavelmente, não imaginava que na freguesia de Santo António existia um fontenário que curava maleitas?

O fontenário da Água Férrea ou do Jamboto é dos mais conhecidos e o mais célebre da freguesia. Uma nascente apelidada de Água Férrea deu lugar a fontenário, por se acreditar ter qualidades terapêuticas no tratamento de doenças. A Câmara Municipal do Funchal contratou o analista Charles Lapierre para analisar quimicamente e bacteriologicamente a água, tendo concluído que do ponto de vista químico a água pertencia ao grupo de águas hipossalinas, cloretadas e férreas. A mineralização da água era, essencialmente, de cloreto de sódio e bicarbonatos de sódio em maior quantidade, bicarbonatos de magnésio e de cal, pequenas quantidades de sulfatos e nitratos, com ausência de amoníaco e de matérias orgânicas o que indica as boas condições em que a água é captada. Do ponto de vista bacteriológico é uma água muito pura, daí se pensar que curava as maleitas.

Sabia que o jogador internacional de futebol Cristiano Ronaldo (CR7) é natural da freguesia de Santo António?

O internacional português Cristiano Ronaldo nasceu na freguesia de Santo António, e viveu parte da sua infância no número 23 do Bairro da Quinta do Falcão.

Sabia que existe uma madre em processo de beatificação, nascida e criada na freguesia de Santo António?

A Madre Virgínia Brites da Paixão, nasceu a 2 de Outubro de 1860, aos 7 anos teve o seu primeiro contato com o divino. Aos 9 anos de idade quando fez o sacramento da Primeira Comunhão teve outra revelação de Jesus que lhe pediu o seu coração. Aos 23 anos de idade ingressou no Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês seguindo a carreira religiosa. 

A sua fama de virtude, penitência e beatitudes levam a contínuas adorações, até aos dias de hoje, encontrando-se aberto o seu processo à beatificação e canonização.

Na antiga casa de seus pais, foi construído o mosteiro de Santo António onde, na capela, é possível visitar a imagem do Senhor da Paciência e num espaço adjacente, o quarto da madre Virgínia com alguns dos seus objetos pessoais.

Ref. Bibliográficas

Vista do Pico dos Barcelos nos anos 60 do século XX, © fotografia Museu ‘’Vicentes’’

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