História

História

História

Ao longo de vários séculos, esta foi uma freguesia marcadamente rural, cujo desenvolvimento acompanhou os principais ciclos económicos da ilha, em torno dos cereais, do açúcar, do vinho e por fim do turismo e da banana.

 A partir da década de cinquenta do século XX, Santo António regista um aumento expressivo de população e habitações, em consequência do êxodo rural em direção à cidade do Funchal, particularmente expressivo nas décadas de sessenta e setenta.

No final do século XX e ao longo do século XXI, a função residencial ganhou ainda mais importância, o tecido urbano compactou-se e o sector terciário assumiu-se como o principal motor económico da freguesia, fruto da atividade turística regional e da modernização dos sectores empresariais.

Séculos XV e XVI

Primeira Tab

A colonização da Ilha da Madeira iniciou-se em 1425, com a fixação dos primeiros colonos na verdejante e protegida baía do Funchal. Atraídos pela abundancia de água e pela fertilidade dos solos, rapidamente os povoadores começaram a expandir-se pelos lombos e vales, ocupando com o cultivo de cereais grande parte do anfiteatro natural que circundava o núcleo primitivo da cidade.

Com a expansão do povoamento, foram nascendo pequenos núcleos populacionais, nos quais eram erigidas capelas que evitavam as longas deslocações ao litoral para atender aos serviços religiosos. Em muitos casos, os sítios onde estes pequenos templos eram construídos, adquiriam a denominação do santo a que o templo era dedicado. Foi o que aconteceu em Santo António, cuja devoção a este santo foi introduzida pelos padres franciscanos que acompanharam os primeiros povoadores.

Como refere o Padre Fernando Augusto da Silva (Silva, 1929), “Foi numa capela da invocação de Santo António, que decerto fazia primitivamente parte duma fazenda povoada, que, por meados do século XVI, se estabeleceu a sede desta paróquia ou ao menos dum curato autónomo... Essa capela deu nome ao sítio e depois à paróquia, ignorando-se o ano da sua construção”.

Os terrenos da freguesia de Santo António fizeram parte da primitiva freguesia da Sé, e posteriormente, durante um curto espaço de tempo, da freguesia de São Pedro, de onde se autonomizou em 1557, provavelmente, como curato dependente da Sé, uma vez que passou a efetuar registos paroquiais. A partir de 1566, já se intitulava de paróquia, embora os seus clérigos tenham mantido o título de curas, só passando a utilizar definitivamente o de párocos a partir de 1574. Quando a paróquia definitivamente se estabeleceu e se criou o curato autónomo, a capela existente foi convertida em igreja paroquial, passando também a sede da nova freguesia.

Santo António foi a primeira freguesia suburbana do Funchal e aquela que mais se desenvolveu, atingindo rapidamente uma população superior às freguesias citadinas e, ainda hoje, é uma das mais populosas de todo o arquipélago.

Ao longo de vários séculos, esta foi uma freguesia marcadamente rural e agrícola, cujo desenvolvimento acompanhou os principais ciclos económicos da ilha. Ao longo dos Séculos XV e XVI, à medida que o negócio do açúcar crescia, aumentava também o número de terrenos com plantações de cana-de-açúcar e a necessidade de mais mão-de-obra, que levou à chegada à Ilha da Madeira de um elevado número de negros e à implantação da escravatura. Como refere António Aragão (1992), “o açúcar, com todo o peso do seu apetrechamento técnico, económico e social, dominou as mentes e a maneira de viver.”

Devido ao açúcar, a Madeira passa a fazer parte de uma rota obrigatória no Atlântico atraindo comerciantes de vários pontos da Europa, que traziam novos produtos vindos de mercados distantes, novas ideias, novos processos de trabalho e uma prosperidade que transparecia também na arquitetura e na arte, patente nas moradias, edifícios e templos.

Neste período, instalam-se nos terrenos da freguesia de Santo António vários morgadios, três deles tinham aqui a sua sede, com as respetivas casas e capelas, nomeadamente, o de Água de Mel, no sítio dos Alamos, o dos Lemes, no sítio da Quinta do Leme, e o de Nossa Senhora da Quietação, no sítio dos Alecrins. Para além destes, instalam-se outros, que não possuiam casa de residência, nem templo religioso, como o morgadio do Laranjal, no sítio com o mesmo nome, o do Til, no sítio da Ribeira Grande, e o do Boliqueime, no sítio de igual nome.

No regime de morgadio os domínios senhoriais eram inalienáveis, indivisíveis e inconceptíveis de partilha por morte do seu titular, transmitindo-se nas mesmas condições ao descendente varão primogénito. Assim, o conjunto dos bens dum morgado constituía um vínculo, uma vez que os mesmos estavam vinculados à perpetuação do poder económico da família de que faziam parte, ao longo de sucessivas gerações. Os morgadios foram extintos em Portugal no reinado de D. Luís I, por Carta de Lei de 19 de Maio de 1863, subsistindo no entanto o vínculo da Casa de Bragança, o qual se destinava ao herdeiro da Coroa, que viria a perdurar até 1910.

A partir da segunda metade do século XVI, os canaviais começam a ser substituídos por vinhedos e um novo ciclo começa a desenvolver-se – o do vinho –, que irá trazer uma nova dinâmica, ao longo dos séculos XVII e XVIII.

Séculos XVII e XVIII

Segunda Tab

À medida que os vinhedos se instalavam e alastravam pelas encostas e vales, o vinho transformava-se na principal fonte económica da Ilha. Surgia assim, uma nova produção agrícola com estruturas económicas próprias, que substituía o ciclo económico da cana-de-açúcar.

As mudanças económicas e sociais que ocorreram durante esse período, ancoradas no Sistema de Colonia, geraram uma sociedade de extremos, profundamente dividida entre os muito ricos e os muito pobres. Os senhorios, donos da terra, cediam os seus terrenos aos colonos, que as cultivam em troca do pagamento de metade da produção e do seu trabalho, e tinham ainda de pagar o dízimo ao Rei, com a fração que lhe cabia. Em contraste, os donos das terras de vinha, cada vez mais ricos, viviam na ociosidade, quase exclusivamente da metade que lhes cabia, resultante do trabalho dos colonos.

Consequência desta conjuntura, a 18 de setembro de 1668, deu-se nesta freguesia um episódio de sedição, perpetrado por parte da nobreza e do clero da Ilha, com o fim de depor o então governador e capitão general do arquipélago D. Francisco de Mascarenhas, que fora incumbido de impedir violências e humilhações dos pobres pelos poderosos da Ilha, o que lhe granjeou a animosidade dos abastados e uma relação difícil com o clero, a quem acusava de inviabilizar as suas funções e o cumprimento das suas ordens, pela oposição que lhe moviam (Trindade, 2011).  

Tratou-se de um assalto à mão armada, ocorrido no sítio de Água de Mel, que culminou com a prisão do governador, quando este se dirigia para a Quinta dos Jesuítas, no pico dos Frias. Um grupo de seis nobres, sete padres e um conjunto de servos e escravos, encarceraram D. Francisco de Mascarenhas, em S. Lourenço, libertaram vários presos e reuniram-se, depois, na Câmara Municipal, na presença do deão, onde nomearam Aires de Ornelas de Vasconcelos como novo governador e elegeram outro elenco camarário. Deste episódio resultou a acusação e condenação ao degredo em Africa, de alguns dos amotinados, entre eles, D. Gaspar de Sá, seu filho D. José de Betencourt e Sá (morgado de Água de Mel) e D. Francisco de Sá, seu parente próximo, todos nobres (Silva, 1997).

Todavia, o vinho não foi só responsável pela introdução de uma nova ordem social, como também por novas e faustosas edificações, como a atual igreja paroquial de Santo António, que constitui um dos marcos arquitetónicos mais importantes desta freguesia. A sua construção teve início em 1783, projetada por António Vila Vicêncio e acompanhada até à sua conclusão, em 1789, pelo alferes António Francisco da Cruz Camacho. Todavia, apesar do serviço religioso se começar a realizar no novo tempo em 1789, o seu acabamento definitivo demorou ainda largos anos. Os trabalhos da capela de Nossa Senhora da Guadalupe apenas terminaram em 1798, os da capela de Santíssimo Sacramento no início do século XIX e os campanários que encimam as duas torres ficaram concluídos apenas em 1883.

Século XIX

Santo António

Com o pretexto de proteger e defender a Ilha de possíveis ataques franceses, em 1901 e 1902, durante as guerras napoleónicas, o exército inglês ocupou a ilha da Madeira, ao abrigo da aliança luso-inglesa, tendo para o efeito enviado um destacamento dirigido pelo Coronel Clinton. Cinco anos mais tarde, chegaram ao Funchal dois regimentos de infantaria e duas companhias de artilharia sob o comando do Major General William Carr Beresford, que ocuparam o Palácio de S. Lourenço e mandaram hastear a bandeira inglesa em todas as fortificações do Funchal.

Apesar desta ocupação ter gerado um enorme desagrado na sociedade regional, o poder dos comerciantes britânicos na Ilha e a sua importância para a sobrevivência dos madeirenses, limitaram as reações. E foi graças a um grande esforço diplomático, que foi evitada a ocupação definitiva do Arquipélago pelas forças Inglesas (Carita, 1982; Bettencourt, 2010).

Ao longo do século XIX, o comércio do vinho “sofre profundos revezes, uns de origem interna e outros provocados por diversas razões externas, as quais, reunidas, obrigaram a uma tremenda e imparável decadência” (Aragão,1992). No contexto externo, o fim das guerras napoleónicas e o termo do Bloqueio Continental, permitiram a entrada de vinhos europeus em Inglaterra e no mercado colonial americano e asiático, diminuindo drasticamente as exportações de vinho madeira. Internamente, as fraudes, as falsificações e as entradas na Ilha de aguardentes vindas do exterior, diminuíram a qualidade e prejudicaram o negócio vinícola. Mas foram sobretudo as pragas do oídio (1852) e da filoxera (1872) que afetaram mais gravemente a economia vitivinícola, contribuindo para o desmoronamento do sector agrícola, que desde o século XVII dependia quase exclusivamente da vinha.

A freguesia de Santo António sendo, à época, uma das áreas da Ilha com maior e melhor produção de vinho, a par de Câmara de Lobos e Estreito, ressente-se profundamente desta conjuntura. Em 15 de outubro de 1876, o inglês Michael Grabham publicou no Times uma carta sobre o estado da cultura da vinha na ilha da Madeira, dando conta dos efeitos devastadores da filoxera: “Os cultivadores que plantaram vinhas depois da primeira moléstia que os destruiu, gozaram apenas de pouca prosperidade, porque a phylloxera vastatrix, inseto que suga as raízes, espalha geral e completa destruição. Nos melhores pontos os lavradores estão já queimando em montões os corredores das suas ainda há pouco belas plantações, e nos lugares menos importantes a devastação está quasi a par das outras. Nos arredores do Funchal (Santo António, São Martinho e São Roque) não há uma só parreira em condições de vigor e é claro que já não se deve esperar colheita considerável de vinho bom” (Vieira, 2003).

Perante a crise, muitos proprietários de terras começaram a vender os seus terrenos e quintas aos comerciantes ingleses, que enriquecidos com o comércio do vinho, as adquirem para aí fixar residência ou para as transformar em pousadas e hotéis de acolhimento para aos inúmeros britânicos de passagem para as colónias ou à procura de tratamento para os seus problemas de saúde. Outros proprietários, mantendo as quintas em mãos portuguesas, passam também a explorar esta vertente económica, dando início a um novo ciclo na Ilha – o do turismo.

Na freguesia de Santo António, algumas destas quintas subsistiram até aos nossos dias, embora com outras funções. A Quinta de Santo António e Quinta dos Cedros, constituem habitações privadas, enquanto outras, como a Quinta dos Leme e a Quinta Josefina, são de utilização pública.

Até o séc. XIX, as vias de comunicação terrestres mantinham as características de veredas e caminhos, muito difíceis de construir e manter, impondo grande risco para a população que as atravessava. O Capitão General João António Sá Pereira, em 1777, referia que “não havia […] caminhos alguns por onde, sem bem evidente perigo de vida, se pudesse passar de umas para as outras freguesias, e ainda sair da cidade mais de meia légua” (Leitão, 2012).

Para contrariar esta situação, em 1836, foi instalada uma comissão de estradas na Madeira, havendo desde então registo da abertura e reparações de estradas, veredas, pontes e túneis. Na freguesia de Santo António, em 1941, foi construída a estrada e a ponte de Água de Mel, no sítio da Penteada. Em 1844 e 1845 foram alargados e prolongados os caminhos do Jamboto e do Lombo dos Aguiares. Entre 1876 e 1877, deu-se a construção e alargamento da estrada entre a Quinta do Leme e o Caminho do Pilar e do caminho entre Santo Amaro e o sítio da Viana, bem como o caminho da Ribeira Grande e Álamos.

No final do século XIX, a rede de caminhos da freguesia começa a ganhar consistência, com a construção da Ponte de Santo António, que era, segundo o Padre Fernando Augusto da Silva (Silva, 1929), uma necessidade e uma aspiração da população da época, pois “…não raras vezes acontecia que, aumentando inesperadamente o volume da corrente, tivessem de voltar à cidade aqueles que, encontrando-se numa das margens, quisessem alcançar a margem oposta”. Nesta época, iniciam-se também os estudos para o melhoramento e adaptação da Estrada da Madalena, que constituía a ligação mais direta à cidade e aquela que, segundo o mesmo autor, apresentava um maior potencial para a fixação de prédios urbanos, como se veio a verificar nos séculos posteriores.

Século XX e XXI

Santo António

No início do século XX, cerca de três quartos dos madeirenses trabalhavam e viviam do setor primário. Somente a partir de 1960, essa proporção viria a diminuir de maneira significativa, deixando progressivamente de constituir a principal fonte económica da Ilha.

Na freguesia de Santo António o cenário não era diferente, até ao último quartel do século XX, a agricultura dominava a paisagem e a economia, com muita cana-de-açúcar, algumas bananeiras nas zonas mais baixas da freguesia, muita vinha e os habituais produtos da agricultura de subsistência, como as hortícolas e frutícolas. Todavia, a chegada do automóvel, logo no início de novecentos, foi determinante para o início de um processo que viria a transformar esta freguesia e influenciar a sociedade e a economia da Ilha.

Na primeira metade do século XX, a rede rodoviária e este novo meio de transporte chegam progressivamente à generalidade das localidades da ilha, reduzindo as distâncias e facilitando a mobilidade a uma população que procurava alternativas para uma agricultura em crise, muito exigente em trabalho e cada vez menos rentável.

Especialmente a partir de 1950, o êxodo rural em direção à cidade do Funchal começa a fazer-se sentir com mais intensidade, sendo particularmente expressivo nas décadas de sessenta e setenta. Neste período, a freguesia de Santo António regista um aumento significativo de população, porque grande parte deste contingente elege as áreas limítrofes da cidade para viver. Em consequência, na segunda metade do século XX, dá-se uma dispersão de pequenas moradias, que começam por ser mais frequentes nas áreas mais baixas da freguesia e ao longo dos lombos, mas com o passar dos anos, se vão adensando e ocupando grande parte das encostas, até uma quota próxima dos 750 metros de altitude.

Raul da Silva Pereira (1969) refere que nos arrabaldes da cidade, vivia-se de uma economia simultaneamente rural e urbana. Um estilo de vida de uma população que já desistiu de viver exclusivamente da terra, mas que se lhe mantém fiel, como atividade subsidiária. Na paisagem, as habitações dispersas interpenetram-se com as terras de cultura, de tal modo que o concelho do Funchal, sendo o mais urbanizado, era também, algo paradoxalmente, um dos mais agrícolas.

Segundo relatos orais, o padre Câmara que habitou a freguesia na década de sessenta do Séc. XX, referia que “Santo António era uma freguesia de gente pobre e trabalhadora, havia algumas pessoas com fazendas e de posses, mas a maioria eram camponeses. Das coisas que mais me impressionavam era ver os “magotes” de gente descalça, a descer de manhã para o seu trabalho, na lavoura, na construção ou noutros ofícios, e à noite vê-las subir, sempre a pé”.

Efetivamente, até à década de oitenta, os habitantes das áreas mais altas da freguesia deslocavam-se maioritariamente a pé, tendo como principais rotas o Caminho do Laranjal, o Trapiche, a Barreira, o Pomar do Miradouro e o Lombo de João Nogueira. No início da década de cinquenta, mesmo a Estrada Comandante Camacho Freitas ainda era uma artéria de terra batida, que os mais pequenos aproveitavam para jogar futebol. E a estrada do Lombo dos Aguiares era em calçada, o que associado à sua inclinação, levava a que os carros tivessem bastante dificuldade para subir.

Em 1976 a Madeira ganha a sua autonomia política e administrativa, tornando-se numa Região Autónoma da República Portuguesa. Este facto, que resulta da Revolução de 25 de Abril de 1974, marcou o início de uma nova era, a que se seguiu a entrada de Portugal na União Europeia. A Região Autónoma da Madeira beneficia de subsídios que lhe facultaram uma maior aposta no desenvolvimento regional em vários sectores. A rede viária foi um dos principais alvos de melhoramento com a construção de diversas infraestruturas que vieram reduzir as distâncias e aumentar a segurança. O turismo madeirense evoluiu e passou a caraterizar-se por um elevado fluxo de turistas, que levou ao aparecimento de novas infraestruturas hoteleiras, a economia diversifica-se e aprofunda-se uma nova filosofia de desenvolvimento económico, social e cultural.

No último quartel do século XX e início do século XXI, a freguesia de Santo António assume-se como uma das áreas residenciais mais importantes da cidade da cidade do Funchal. Todavia, mantém na paisagem as marcas da sua evolução história, patente na enorme dispersão de habitações, na interpenetração de moradias nos terrenos de cultivo e numa rede viária baseada nas ancestrais infraestruturas rurais, que foram progressivamente sendo modernizadas e expandidas. A predominância da função residencial é acompanhada pela infiltração do pequeno comércio e de alguns serviços, que se vão densificando ao longo do tempo de acordo com as necessidades da população, cuja ocupação passa principalmente pelo setor terciário da cidade do Funchal.

Personalidades

Inauguração oficial do monumento erigido à memoria do erudito escritor e historiador madeirense Padre Fernando Augusto da Silva, © fotografia Museu "Vicentes"

Madre Brites Paixão

Em 1672 enveredou pelo caminho religioso, no mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, já com 30 anos. Na sua vida religiosa, foi muitas vezes, enaltecida pela forma distinta e pela devoção divina que mostrava nos seus ensinamentos às noviças, prestando-se às mais diversas penitências, entre elas, privar-se de comer carne e submeter-se a rigorosos jejuns. Faleceu em 1733, no referido mosteiro com odor de santidade, o que deu origem ao processo de beatificação. O Padre Fernando Augusto da Silva (1929), refere alguns relatos de religiosas, segundo as quais o Senhor da Paciência falava com a madre sob figura animada. Outros relatos narram os dotes com o que o Senhor a beneficiou, sob forma de curas, tanto em vida como já na sua morte. Uma das curas mencionadas foi a de uma menina de 9 anos vítima de uma doença grave.

Madre Mariana Rosa do Sacramento

Nasceu em agosto de 1677 e aos 30 anos enveredou pelo caminho religioso no Convento de Nossa Senhora das Mercês, vindo a falecer a 17 de Dezembro de 1740. Afirma-se que, aquando a sua morte se sentia o odor de santidade.

Madre Virgínia Brites da Paixão

Nasceu no dia 24 de outubro de 1860, no Lombo dos Aguiares e era também conhecida pela “Santa Freirinha”. Aos 7 anos teve o seu primeiro contato com o divino quando assistia à eucaristia na igreja de Santo António. No momento da consagração da hóstia, viu o Menino Jesus que lhe ofereceu um anel simbolizando a sua aliança de Amor para com Ele. Aos 9 anos, quando fez o sacramento da Primeira Comunhão, teve outra revelação de Jesus que lhe pediu o seu coração, que a pequena Virgínia ofereceu com simplicidade. Aos 23 anos ingressou no Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês seguindo a carreira religiosa e em 1897 diz-se ter sido curada milagrosamente de uma doença por uma carmelita de Lisieux que acabara de falecer, conhecida por Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face.

Os exemplos de pureza, adoração a Deus e penitência, elevaram-na ao cargo de madre superiora no mosteiro de Nossa Senhora das Mercês em 1909. Em 1910, na implantação da República, foi expulsa do mosteiro juntamente com as restantes religiosas, em resultado da perseguição imposta à Igreja Católica pelo decreto que ordenava o encerramento dos conventos e mosteiros e a expulsão dos respetivos residentes. Foi feita prisioneira, durante um dia, na fortaleza de São Lourenço, sendo resgatada pelo seu irmão. Aquando da expulsão do mosteiro de Nossa Senhora das Mercês a madre trouxe consigo a imagem do Senhor da Paciência, uma escultura que pertenceu à Madre Brites Paixão, clarissa do século XVII, que se tornara num património valioso do mosteiro. Após a expulsão, a madre Virgínia Brites da Paixão foi viver, para casa de seus pais, no Lombo dos Aguiares, em Santo António, onde continuou a levar uma vida muito próxima da de clausura, dedicada à oração e pontuada das experiências místicas, com visões de Nossa Senhora, que a acompanhavam desde muito nova. O seu modo de viver despertava a admiração não só das suas correligionárias, como da população em geral, e, anos depois da sua morte, ocorrida a 17 de janeiro de 1929, começou a germinar a ideia da fundação de um Convento junto da casa onde habitara. Em março de 1967, transferiram-se para as instalações, ainda provisórias, as primeiras três irmãs oriundas do Convento de Nossa Senhora da Piedade, e, em 1975 foi oficialmente criada a casa conventual de Clarissas.

A sua fama de virtude, penitência e beatitudes levam à sua adoração, até aos nossos dias, estando aberto o seu processo de beatificação e canonização. Ainda hoje, é possível comtemplar o quarto da Madre Virgínia, que contém alguns dos seus objetos pessoais, no Mosteiro de Santo António (ou do Lombo dos Aguiares) que foi instalado no local onde a “Santa Freirinha” nasceu, cresceu e faleceu.

Padre Teodoro João Henriques

O Padre Teodoro João Henriques nasceu no Funchal, em novembro de 1861, sendo ordenado padre a 15 de novembro de 1884. Fez exame de confessor a 7 de maio de 1885 e de pregador a 3 de maio de 1898. Mostrou desde cedo, a sua inteligência e aptidão para a carreira eclesiástica, destacando-se pelo seu conhecimento teológico e científico, para além de ser um músico distinto.

Deu na freguesia de Santo António, continuidade ao trabalho religioso do padre Henrique Modesto de Bettencourt¸ foi cura desta paróquia em 1888 e da de S. Martinho em 1908, distinguiu-se pela forma determinada e convicta que espalhava a sua ideologia aos fiéis, pela sua dedicação às obras e associações e fomentou a eclosão da freguesia. Foi, ainda, sacristão-mor da Sé a 20 de janeiro de 1900.

Rumou a Lisboa em 1910, em busca de águas medicinais, mas foi feito preso político, acusado de conspiração e alvo de tortura, durante largos meses. Comprovada a sua inocência, foi libertado, mas devido aos efeitos da clausura e a problemas de saúde depressa revelou uma tuberculose pulmonar, que o vitimou a 6 de Outubro de 1912. O seu pai, que o adorava, morre de desgosto junto ao cadáver do filho ainda quente, tendo ambos sido sepultados no dia seguinte.

Padre Fernando Augusto da Silva

O Padre Fernando Augusto da Silva, nasceu a 29 de setembro de 1863, na freguesia de Santa Maria Maior e faleceu 18 de setembro de 1949, na freguesia de Santo António. Ordenou-se sacerdote com distinção em 1888, no Seminário do Funchal, exerceu funções eclesiásticas em diversas freguesias da Madeira, sendo por fim colocado como pároco na freguesia de Santo António. Foi professor entre 1901 e 1930 na Escola Industrial e Comercial António Augusto de Aguiar no Funchal. Foi procurador da Junta Geral do Funchal, Presidente da Câmara do Funchal (durante dois mandatos) e presidente da Comissão da Santa Casa da Misericórdia do Funchal. Pertenceu à Associação de Arqueólogos Portugueses, ao Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia, à Academia Portuguesa de História e à Delegação da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Foi galardoado a 8 de setembro de 1926, pelo Ministério da Instrução Pública, com o grau de oficial da Ordem de São Tiago da Espada. Interessava-se pela investigação da história da Ilha da Madeira, paixão que deu origem a diversas obras, entre as quais o conhecido “Elucidário Madeirense”.

António Nobre (Poeta)

Entre 1898 e 1899, o poeta residiu alguns meses na Madeira, numa casa no sítio do Trapiche, em Santo António, na tentativa de atenuar os efeitos da sua doença. Enquanto poeta, tinha uma escrita que refletia a sua amargura permanente e conformação com a morte. Contudo, dotada de uma originalidade e modernidade que ressalta a essência dos seus poemas. Em 1892 publicou a 1ª edição de “Só”, seguiram-se volumes como “Despedidas” e “Primeiros Versos”. Segundo o padre Fernando Augusto da Silva (1929), no sítio do Trapiche, o poeta terá deixado escrito numa árvore, as seguintes palavras: “Sede de imensa luz como a dos para-raios”.

William Edward Clode

Nasceu na freguesia de Santa Luzia, a 13 de setembro de 1900. Com nacionalidade inglesa e formação anglicana necessitou de um visto para viajar para Coimbra, em 1919, para se formar em Medicina. Na cidade dos estudantes, foi membro de várias associações e grupos musicais académicos, tornando-se sócio do Centro Académico de Democracia Cristã, grupo outrora criado para responder ao agravamento da questão religiosa levantada pelo governo de Hintze Ribeiro. Aos 21 anos, foi batizado na Igreja Católica e fundou, a 10 de maio de 1923, o Lactário de Nossa Senhora, integrado na Conferência de São Vicente de Paulo da Faculdade de Medicina, da qual foi presidente.

Doutorado em Medicina em 1925, casou-se com Maria Carolina Dória Monteiro a 13 de setembro de 1926. De regresso à ilha da Madeira, a sua preocupação pelos mais necessitados levaram-no a criar o Dispensário Infantil Divina Providência e a Associação da Gota de Leite da Madeira. Fundou também, em 1932, a Juventude Católica Antoniana, que incluía um grupo musical, um grupo dramático e um orfeão de 60 membros. O cruzeiro do Pico dos Barcelos foi erigido por sua iniciativa em 1940, enquanto presidente da Juventude Católica Antoniana. Em 1935 foi nomeado médico escolar, desempenhando funções no Liceu Jaime Moniz até 1966 e tornou-se médico da Associação de Futebol do Funchal. Foi professor de Higiene e Saúde Escolar, na Escola do Magistério Primário do Funchal, ensinou inglês, ciências naturais, desenho e trabalhos manuais no Liceu Jaime Moniz, lecionou inglês no Seminário Diocesano do Funchal e deu aulas no Colégio de Apresentação de Maria e na Escola Industrial e Comercial António Augusto de Aguiar.

Enquanto médico, foi assistente de cirurgia e medicina da Santa Casa da Misericórdia, onde, em 1951, foi nomeado diretor clínico. Foi médico da Casa de Saúde de São João de Deus e fundou a Casa de Saúde Vila Guida, com os doutores João Abel de Freitas, António Félix e Antonino Costa. Já reformado, em 1966 manteve o seu consultório e a sua ação no Hospital dos Marmeleiros. Pertenceu ao pelouro dos Postos Médicos, Cemitérios e Iluminação da Câmara Municipal do Funchal, entre 1932 e 1940, contribuindo para a criação de escolas, postos médicos e para o alargamento da rede de destruição de eletricidade. A 19 de janeiro de 1935, foi nomeado presidente da Junta de Higiene e a 5 de janeiro de 1939, é eleito por escrutínio secreto, vice-presidente da Câmara do Funchal.

Em termos de ações culturais, foi um dos fundadores e presidentes da comissão executiva da Sociedade de Concertos da Madeira e da Academia de Música da Madeira, que por sua iniciativa se tornou na Academia de Música e Belas Artes da Madeira em 1956. Faleceu a 3 de outubro de 1980, deixando várias obras escritas, entre as quais: O Problema Sexual no Meio Académico (1925); Quadros Vicentinos (1938); Some Memories of My Life (1971); Stories for My Grand Children (1973); Fruits of Madeira (1974).

Vânia Patrícia Ferreira Fernandes

A cantora Vânia Fernandes nasceu a 25 de Setembro de 1984, na freguesia de Santo António. Estudou na Escola das Artes Eng. Luís Peter Clode, onde concluiu o curso profissional de canto em 2007 e no Conservatório de Música da Madeira, onde completou o curso de Jazz. Terminou a licenciatura em Musica, em 2012, na Escola Superior de Música de Lisboa. Começou a sua carreira com atuações em unidades hoteleiras e festivais na ilha da Madeira, mas ganhou notoriedade quando integrou o programa de televisão da RTP, “Operação Triunfo 3”, conquistando o primeiro lugar. Em 2008, venceu o Festival RTP da Canção e representou o país no Festival Eurovisão da Canção.

Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro

Nasceu a 5 de Fevereiro de 1985, na freguesia de Santo António. O seu nome (Ronaldo) terá sido escolhido pelo seu pai, por ser fã do ator e presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan. Aos 6 anos integrou um dos clubes da freguesia “O Andorinha”, onde o seu pai era colaborador.

Em 1995 foi jogar para o Clube Desportivo Nacional, de onde seguiu, em 1997, para a Academia do Sporting Clube de Portugal, como liquidação de uma dívida antiga do clube, acabando por revelar um enorme talento e dedicação. Em 2002, integrou a equipa principal do Sporting Clube de Portugal, apresentando um talento inigualável que o levou a ser contratado em 2003 pelo Manchester United, após um jogo particular entre as duas equipas, para a inauguração do estádio Alvalade XXI. Nesse mesmo ano é convocado pela primeira vez para a Seleção Portuguesa, com a qual se sagrou Campeão Europeu em 2016. Em 2008 conquista a sua primeira bola de ouro e o título de melhor jogador do mundo. Em 2009 o Real Madrid contrata-o por 94 milhões de euros, constituindo, à época, a transferência mais cara do mundo do futebol. Em 2018, transfere-se para a Juventus, num negócio de 112 milhões de euros, efetuado aos 33 anos de idade, o que constituiu mais um marco financeiro do futebol mundial. Até à época 2017/2018, ganhou 25 títulos pelas equipas onde jogou e foi por 5 vezes considerado pela FIFA o melhor jogador do mundo.

Ref. Bibliográficas

Freguesia de Santo António

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